posted by Yamanaka
@ 22:05
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Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
por Arnaldo Jabor
Minha profissão é ver o mal do mundo. Um dia, a depressão bate
- não agüento mais ver a cara do Bush ostentando rugas na testa de preocupação com o nosso destino (que ele azedou);
- não agüento mais o Lula de boné dançando xaxado;
- não agüento ver o Sarney feliz, mandando no país, guardando o PT no bolso do jaquetão, enquanto os petistas, comunistas, tucanistas e fascistas discutem para ver quem é mais de esquerda ou de direita, enquanto o país afunda em violência e miséria, com o Estado sendo loteado entre esquerdistas sem emprego;
- não dá mais para ouvir que há transgênicos de esquerda ou de direita, principalmente quando ninguém consegue impedir
as queimadas na Amazônia;
- passo mal também quando vejo a cara dos oportunistas do MST, com a bênção da Pastoral da Terra, liderando pobres diabos para a revolução contra o capitalismo;
- não agüento secretários de Segurança falando em forças-tarefa, em presídios perfeitos que não conseguem
nem bloquear celulares;
- não suporto ver que o Exército se recusa a ajudar na repressão ao crime, com generais tão eficazes para arrasar a guerrilha urbana nos anos 70;
- não suporto a polêmica desenvolvimento x austeridade, planos B, C e D;
- tenho horror do Fome Zero;
- tenho enjôo com vagabundos inúteis falando em utopias, bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos rancorosos decepcionados com Lula;
- não agüento mais ver a República tratada no passado, nostalgias de tortura, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma idéia para nosso futuro;
- não tolero mais a falta de imaginação política, a retórica da impossibilidade sem saídas pontuais e originais,
e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada e que os juros baixos não acontecem nunca e penso: "Ahh...
se os homens de bem tivessem a imaginação dos canalhas!";
- não aturo mais essa dúvida ridícula que assola a reflexão política: paciência x voluntarismo, processo x il;ão,
continuidade x ruptura;
- passo mal vendo político pedindo CPI para se lavar;
- deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, o vice Alencar no bordão da queda dos juros, e o Palocci dizendo que não dá pé;
- tenho engulhos ao ver essa liberdade fetichizada que rola por aí, produto de mercado, ao ver êxtases volúveis de clubbers e punks de boutique, livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas, querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas;
- odeio recordes sexuais, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama;
- não suporto mais anúncio de cerveja fazendo competição entre louras burras e Zeca Pagodinho jogado numa cilada;
- detesto bingo, pitbulls, balas perdidas, suspense sobre espetáculo de crescimento;
- abomino a excessiva sexualização de tudo, com bombeiros sexy engatados em mulheres divididas entre a piranhagem e a peruíce, o sexo como competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados? Onde, o refinamento poético do êxtase?
- repugna-me ver sorrisos luminosos de celebridades bregas, passo-de-ganso de manequim, saber quem come quem na "Caras", mulher pensando feito homem, caçando namorados semanais, com essa liberdade vagabunda para nada;
- horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, como crianças brincando num shopping, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e no Ocidente;
- não agüento mais cadáveres na Faixa de Gaza e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e trens sangrando em Madri, museu de Bilbao, museus evocando retorcidos bombardeios, sem arte alguma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô do artista;
- não agüento mais chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, gente afogada na Nove de Julho, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro dos pobres e destrói a religião negra da Bahia, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã rezam com os rabos para cima;
- não agüento mais ver xiitas sangrando, dançando e batendo na cabeça no tão esperado século XXI, enquanto Bush reza na Casa Branca e o Dick Cheney, sujo de petróleo, fala em democracia no Iraque;
- não agüento mais ver que a pior violência é o acostumamento com a violência, pois o mal se banaliza e o bem vira um luxo burguês;
- não admito mais ouvir falar de globalização, enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo com bolinhas de tênis nos sinais de trânsito do Rio;
- não suporto o sorriso de Blair, a cara constrangida de Colin Powell, as pernas lindas de Condoleeza Rice, que me excita ao pensá-la em sinistras sacanagens na noite de Washington;
- não agüento cariocas de porre falando de política, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas-de-prata, evangélicos intocados pela lei, novas forças-tarefa, Lula com outro boné, políticos se defendendo de roubalheira falando em honra ilibada, conselhos de notáveis para estudar problemas sem solução, anúncios de celular que faz de tudo, até boquete;
- dá-me repulsa e lágrimas ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis;
- odeio Sharon e Arafat, a cara de sábia estupidez dos aiatolás, o efeito estufa, o derretimento das calotas polares, casamento gay, pedofilia
perdoada na Igreja, Chavez e seus referendos, Maluf negando, Pitta negando, o Sombra negando, enquanto juízes corruptos reclamam do controle do
Judiciário, e o Papa rezando contra a violência sem querer morrer jamais;
- não agüento mais Cúpulas do G7, lamentando a miséria para nada, e tenho medo que o Kerry, que tem uma cara duvidosa de ponto de interrogação, com aquele queixo de caju, perca a eleição, entregando o mundo à gangue do Mal.
Tenho medo de tudo, inclusive da minha antiga e endêmica depressão, essa minha vã esperança iluminista.
E tenho medo, acima de tudo, que as pessoas não agüentem mais a democracia e joguem o país de vez no buraco.
posted by Yamanaka
@ 09:59
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