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NUVEM NEGRA SOBRE O SOL
NASCENTE
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| Trata-se de uma história por
trás da história. Em agosto de 1945, enquanto os japoneses amargavam
as conseqüências da derrota na guerra com duas cidades, Hiroshima
e Nagasaki, aniquiladas pela bomba atômica, imigrantes nipônicos
no Brasil acreditavam veementemente na vitória do imperador
Hiroito sobre os Aliados. E o pior: mataram em nome dessa verdade
absoluta. |
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| Esse episódio, considerado uma página negra
para a imigração japonesa, vai ultrapassar as barreiras da comunidade
e ganhar várias outras páginas distribuídas em dois livros a
serem lançados em novembro: Corações Sujos (Companhia das Letras),
de Fernando Morais, e Inventário Deops Shindô-Renmei (Imprensa
Oficial), de Rogério Dezem. Não é por acaso que os livros estão
sendo feitos por gaijins (estrangeiros). Há um certo tabu a
respeito do tema. Esse assunto é uma vergonha para a colônia
japonesa, diz Célia Oi, diretora do Museu da História da Imigração
Japonesa, em São Paulo. |
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| As duas publicações tocam em uma ferida
da comunidade nipônica: a associação Shindô-Renmei (Liga dos
Seguidores do Imperador), formada em 1944 por imigrantes japoneses
no Brasil. Os integrantes da Shindô-Renmei acreditavam que as
notícias da derrota japonesa difundidas no Brasil não passavam
de propaganda dos Aliados e, por isso, mataram 23 pessoas e
cometeram cerca de 100 atentados. A história ganha contornos
ainda mais fortes porque todos esses atos foram cometidos contra
os próprios japoneses. Esse foi um fenômeno único no mundo.
Não há registros de ações semelhantes em outros países e em
outras imigrações, diz Rogério Dezem. |
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| Os atentados ocorreram em virtude de um
racha na colônia japonesa no Brasil que resultou na criação
de duas facções: os kachigumi (japoneses que acreditavam
na vitória do Japão) e os makegumi (que sabiam da derrota),
também conhecidos como corações sujos. De acordo com Dezem,
cerca de 75% dos mais de 200 mil imigrantes japoneses no país
na época eram kachigumi. Para a Shindô-Renmei, as pessoas que
acreditavam na derrota do Japão eram antipatriotas. Aí, surgiu
uma guerra entre os próprios imigrantes, observa Suzumu Miyao,
diretor-executivo do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros. Os
integrantes do Shindô-Renmei diziam que o Japão havia jogado
a bomba atômica em uma frota americana em território japonês. |
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| Havia ainda um terceiro segmento, conhecido
como lero-lero, formado por japoneses no Brasil que tiravam
proveito tanto dos kachigumi como dos makegumi. As maiores vítimas,
no entanto, eram os kachigumi. Esses empresários chegaram a
vender iene desvalorizado aos japoneses que acreditavam na vitória
e queriam voltar a um Japão imbatível, afirma Célia Oi. Segundo
ela, também foram comercializados terrenos na Manchúria, território
chinês conquistado antes da guerra. Muitos que caíram na cilada
se suicidaram por vergonha. Como eles iam contar o fato para
seus filhos?, pergunta a diretora do museu. |
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| A deturpação histórica em torno
da Segunda Guerra foi fruto de toda uma conjuntura histórica brasileira.
Os principais motivos foram a repressão prevista por leis do governo
brasileiro, a diferença cultural entre o ocidente e o oriente
e uma dispusta interna pela liderança na colônia japonesa, segundo
Rogério Dezem. |
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| A legislação estabelecida
pelo Estado Novo, a partir de 1938, durante o governo nacionalista
de Getúlio Vargas, era precisamente contra imigrantes no Brasil,
sobretudo, de procedência de países do Eixo (Japão, Alemanha
e Itália). Primeiro, foram fechadas mais de 200 escolas japonesas
no Brasil e os imigrantes foram proibidos de desenvolver atividades
políticas no país. Três anos depois, o governo vetou a publicação
de jornais e revistas estrangeiras e a comunicação em outra
língua no Brasil. |
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| Nesse cenário, a colônia japonesa
foi terrivelmente afetada, pois, como a maioria dela não falava
português, eles perderam suas fontes de informação.Quando foi
proibida a chegada de correspondência, jornais e revistas, o
Japão liderava a guerra. Por isso, muitos japoneses acreditavam
realmente na vitória. Era a última notícia que eles tinham,
avalia Célia Oi. Além disso, como explicar o que era a bomba
atômica aos japoneses daqui? Era muita abstração, diz. Na época,
apenas 3% da população de origem japonesa no Estado de São Paulo
consultava os órgãos de comunicação do Brasil. Somente quem
morava em São Paulo e sabia falar português acreditava, de fato,
que o Japão havia sido derrotado, diz Miyao. |
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| Houve ainda uma limitação à entrada de estrangeiros
no Brasil, com uma restrição acentuada contra os japoneses,
cuja entrada anual já havia sido reduzida, pela Constituição
de 1934, a 2% do número que havia entrado nos últimos 50 anos,
de acordo com pesquisa de Fernando Morais. Segundo ele, na década
de 1930, o Brasil já possuía a maior colônia japonesa do mundo,
a grande maioria concentrada no Estado de São Paulo. O boom
de imigração japonesa no país ocorreu entre 1908 e 1938. |
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| As medidas contra os estrangeiros faziam
parte do projeto nacionalizador de Getúlio Vargas, que considerava
as comunidades japonesas e judaicas avessas à uma integração
com a sociedade brasileira. Portanto, esses casos se transformaram
em um problema de segurança nacional. Nesse momento, o conceito
de perigo amarelo, atribuído aos japoneses na década de 20,
se intensificou e ganhou cores mais fortes com o rompimento
das relações diplomáticas entre o Brasil e o Japão, por causa
da guerra. De pessoas indesejáveis, os japoneses se tornaram
inimigos da nação. |
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| Além da legislação brasileira, que acentuava
a diferença cultural entre os mundos ocidental e o oriental,
Dezem aponta também como ponto central da cisão na comunidade
uma crise política interna. Isso porque, com o início da guerra,
os diplomatas japoneses no Brasil voltaram para o Japão e os
interesses da colônia ficaram sob os cuidados do governo sueco.
A Shindô-Renmei foi, sobretudo, uma briga política, afirma Dezem.
Para ele, a ausência de liderança incitou uma batalha interna
para ocupar o espaço vazio. |
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| A antropóloga Maria Lúcia Eiko Hatanaka
doutoranda da Unicamp que defendeu a dissertação de mestrado
sobre a Shindô-Renmei, em 1993 avalia que essa crise também
está ligada ao período de urbanização e industrialização do
Brasil, que dividiu a colônia. Algumas pessoas da colônia ficaram
à margem da ascenção social da industrialização. Alguns grupos
foram muito favorecidos economicamente, diz. |
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| Mas a Shindõ-Renmei não foi a única associação
nacionalista japonesa. Na realidade, ela é resultado de uma
fusão de vários grupos que surgiram durante a guerra. Essas
organizações começaram os primeiros atentados de terrorismo
contra depósitos de bicho-da-seda e casulo e plantações de menta
em terras dos próprios japoneses. Isso acontecia porque essas
produções eram exportadas para os Estados Unidos e utilizadas
durante a guerra para construir pára-quedas e servir de aditivo
para gasolina de aviões, afirma Célia Oi. |
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| A Shindô Renmei, porém, era uma organização
clandestina criada com o objetivo de preservar a cultura do
país e preparar os imigrantes para um retorno ao Japão. A ideologia
dessa sociedade era cultivar o yamato damashii (espírito
japonês), que defendia a imbatividade da Terra do Sol Nascente
e a superioridade dos japoneses sobre as outras raças. Durante
os cinco anos de pesquisa realizada por Fernando Morais, ele
encontrou documentos indicando que a maioria dos japoneses (85%)
pretendiam voltar ao país vitoriosos, econômica e politicamente.
Por isso, havia uma preocupação da comunidade com a preservação
da cultura. A derrota do Japão destruía todo o sonho de voltar
bem-sucedido ao Japão, afirma Célia Oi. |
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| A sede da Shindô-Renmei ficava
no número 96 da rua Pacatu, no Jabaquara, em São Paulo. Apesar
de a matriz ser na capital, sua principal atuação foi no interior,
onde a associação tinha 64 filiais em cidades do Estado de São
Paulo e do Paraná. Segundo documentos da organização, havia
30 mil sócios registrados e mais de 100 mil imigrantes que apoiavam
a associação, doando cinco cruzeiros por mês. Com esses recursos,
as unidades da Shindô-Renmei criaram uma estrutura para a divulgação
do yamato damashii, por meio de quatro programas: educação
(ensino do japonês), comunicação (divulgação de notícias), higiene
(assistência médica) e moços (educação física e espírito patriótico).
A Shindô-Renmei criou filiais também no Peru e no México, mas
não há registro de atentados terroristas nesses países.
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| O primeiro dos 23 makegumis
assassinados foi Ikuta Mizobe, em 7 de março de 1946, em Bastos
(SP). Ele era gerente da Cooperativa Agrícola de Bastos e líder
da colônia na cidade. O crime foi cometido por Satoru Yamamoto,
membro da Tokkô-tai (Unidades Especiais de Ataque por Choque
Corporal), braço da Shindô-Renmei e grupo responsável pelos
atentados. Foi Yamamoto também um dos autores do atentado contra
Hiroshi Yamanaka e sua mulher, em 16 de junho do mesmo ano,
também em Bastos. Os dois sobreviveram. |
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| Segundo Susumu Yamaka, filho
do casal, que presenciou o atentado, a cena é inesquecível.
Na época, ele estava com oito anos. Estávamos reunidos em casa,
com dois amigos do meu pai, quando bateram na porta. Antes de
meu pai atender, dois mascarados entraram e dispararam dois
tiros contra ele, um no peito e outro na coxa. Minha mãe também
levou um tiro no pé. Eu não entendia. Só via uma fumaça no ar. |
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| De acordo com Yamanaka, mesmo
ferido, seu pai tentou pegar o revólver, mas foi impedido pela
mulher de atirar. Ele havia decidido andar armado depois de
ter recebido ameaças de morte por parte dos membros da Tokkô-tai.
Na ocasião, Yamanka era funcionário do Banco América do Sul
e um dos poucos na cidade a participar da campanha de esclarecimento
sobre a derrota japonesa. Como éramos minoria na cidade, minha
mãe não podia fazer compras, pois recebia ameaças de envenenamento
nos mantimentos, lembra. |
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| Os integrantes da Shindô-Renmei,
liderados por Junji Kikawa, ex-oficial do Exército Imperial
Nipônico, eram seguidores da divindade representada pelo imperador
Hiroito. Tal devoção era conseqüência de uma cultura estabelecida
nos anos pré-guerra no Brasil. O governo japonês estava presente
no espírito das colônias no Brasil. Ajudava a criar os núcleos
por aqui e os aniversários do imperador Hiroito eram celebrados
como se estivessem lá, explica Maria Lúcia. |
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| Outro fator para a difusão
da ideologia nacionalista é a forte presença de militares entre
os imigrantes japoneses no país. Muitos deles tornaram-se membros
da associação e vieram para o Brasil entre 1928 e 1933. Nesse
período houve uma reformulação no serviço militar japonês e
muitos dos que serviam foram aposentados compulsoriamente, emigraram
para cá e trouxeram sua cultura, observa Dezem. |
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| No período mais intenso de
atuação da Shindô-Renmei, o Departamento de Ordem Política e
Social de São Paulo (Deops) promoveu uma busca estruturada contra
os terroristas. Prendeu mais de duas mil pessoas e 390 foram
indiciados. Em 10 de agosto de 1946, decretou a expulsão do
território brasileiro de 81 japoneses que integravam a organização.
Eles foram enviados para o Instituto Correcional da Ilha de
Anchieta. O julgamento começou em agosto de 1949 e só terminou
em 13 de outubro de 1958 com o arquivamento do caso, que havia
sido proscrito. |
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| Ao mesmo tempo, os imigrantes
começaram a tomar consciência da derrota japonesa, principalmente
depois do restabelecimento da comunicação com as vítimas de
guerra no Japão. A partir de junho de 1947, eles passam a ajudá-las
por meio da Cruz Vermelha, e muitos japoneses escrevem relatando
a triste história. Começa aí a se dissipar a idéia da derrota,
afirma Célia Oi. |
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| Apesar de o fato ter virado
vergonha para a maioria dos japoneses, alguns imigrantes ainda
questionam a rendição de Hiroito. Fusatofhi Yamauchi, de 84
anos, por exemplo, continua a ser um admirador do imperador
e credita a derrota a uma questão de sobrevivência e não a um
ato de fraqueza. A Itália e a Alemanha haviam jogado a bandeira
branca e o Japão não poderia lutar contra o mundo, diz. Para
ele, a ação da organização pode ser comparada, hoje, à dos guerrilheiros
libaneses em Israel. A Shindô-Renmei é como o Hezbollah, com
a diferença de que ela agia dentro da comunidade. Yamauchi foi
preso em março de 1946, como suspeito de integrar o grupo, fato
que ele nega. Sou inocente. |
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|
Por Robinson Borges
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