Dekassegui    

Imigração
BrasilJapão
Dekassegui
Projetos
Música
Nandayo
Colírio

   
EDUCAÇÃO; DIREITO DOS FILHOS, DEVER DOS PAIS
No dia 12 do corrente, ao iniciar as aulas do Colégio Pitágoras em Ota-shi na Província de Gunma, o seu diretor Pedro Mendes pediu aos seus alunos do primeiro grau, com idade média de 14 anos, em sua grande maioria, considerados como da oitava série, para escreverem uma redação com o título – "Como vejo o Brasil de hoje"; o texto deveria ser escrito em 20 linhas. 
O professor Pedro entregou-me os textos, sem tecer qualquer comentário. Pedro Mendes Neto é diretor do Colégio Pitágoras do Japão 
Ao terminar de ler esses textos de mais de vinte alunos, confesso que fiquei muito emocionado. Não tenho vergonha de dizer que chorei. Talvez seja em decorrência de minha idade. Dizem que os velhos se emocionam com facilidade. Mas a verdade é que fiquei numa "fossa" como nunca tinha provado por muito tempo. 
O prezado leitor poderá imaginar que chorei por causa do conteúdo das redações dos meninos e meninas. Não. Ao virar as páginas das redações, percebi que as crianças que as escreveram simplesmente não sabem ainda distinguir em suas escritas rudimentos do nosso vernáculo. É bem verdade que defasados por circunstâncias que não são de sua responsabilidade, como a vinda para o Japão acompanhando compulsoriamente seus pais, mas nada é mais pungente que perceber que estas crianças ainda estão na fase de distinguir os sons das palavras sem poder escrevê-las corretamente na nossa língua. Imagino que esta situação não seja só de Ota. 

Como se sabe, crianças que não têm acesso ao aprendizado da leitura e da escrita, em idade adequada, futuramente poderão ter dificuldades em formular idéias e mesmo verbalizá-las: candidatas naturais a serem consideradas cidadãs de segunda categoria. 

Segundo especialistas em estudos de língua e de bilingüismo, como a professora Alice Joko da Universidade de Brasília, ora no Japão escrevendo uma tese, as crianças brasileiras que vivem no Japão precisam ter seus currículos escolares brasileiros com métodos de ensino totalmente diferentes e adequados às condições em que vivem. Isto já acontece no Canadá, onde se procura preservar a identidade do aluno, para formar um cidadão que possa adaptar-se a dois ambientes culturais diferentes, em contraste com a posição dos Estados Unidos, que força o povo minoritário a se adaptar ao sistema americano. E também a dos japoneses no Brasil, principalmente das conhecidas "escolas japonesas", que continuam insistindo na preservação unicamente de seus valores culturais. 
As crianças que aqui estão, pode-se dizer, enfrentam "o pior dos mundos": 
aquelas que vêm ao Japão, com idade entre 6 e 10 anos, têm acesso as escolas japonesas em seu ensino básico e conseguem acompanhar as aulas sem dificuldades. Mas perdem a sua identidade com o nosso país: viram japoneses, até na maneira de agir e pensar. Ao voltarem para o Brasil, sofrem um violento e desgastante processo de adaptação; 
aquelas que chegam com formação ginasial do Brasil, dificilmente conseguem acompanhar o ensino básico japonês; poucas conseguem ter acesso ao nível colegial, a não ser aquelas que cursaram desde o início o ensino básico japonês; todos os cursos, fora o básico japonês, são muito caros.
Por outro lado, as crianças que ficaram no Brasil sob a guarda de tios e avós, longe da vista dos pais, naturalmente, com a liberdade que desfrutam, estão se tornando rebeldes, negando a imagem que outrora e ainda atualmente os nikkeys têm na sociedade brasileira, de que são obedientes, dedicados e bons alunos. 
Para a grande maioria dos pais que optaram por vir trabalhar no Japão, o problema de educação de seus filhos é, sem dúvida alguma, o seu maior drama. Só de imaginar que seus filhos teriam educação de nível inferior ao seu, muitos pais certamente nem conseguem dormir direito. 
A solução do complexo problema da educação dos filhos de brasileiros, residentes no Japão, parece longínquo, mas o primeiro passo precisa ser dado. Todos precisam somar esforços para minorar o mais rápido possível este problema, para que uma solução razoável tenha encaminhamento. Esperar que outros ou os governos de ambos países resolvam o problema é pura ilusão. 
A oportunidade de se estudar no Japão, conciliando o ensino de ambos países, tendo em seu currículo matéria como o inglês e o espanhol, além do japonês, certamente será uma educação de nível de primeiro mundo, que poucos no próprio Brasil têm possibilidade de desfrutar. 
Hoje em dia, com a tal de globalização da economia mundial, o importante é que aos filhos seja proporcionada a chance de poderem optar por trabalhar onde lhes seja dada oportunidade, com sua identidade de brasileiro bem definida. Seriam com certeza os global players do mundo: não importa que estejam no Japão, Estados Unidos ou em qualquer país da Europa. Aos nikkeys ou seus parentes, que aqui estão, há somente a opção japonesa e a volta para o Brasil. 

A atual conjuntura econômica, tanto do Brasil como do Japão, ainda instável, não assegura um horizonte viável a curto prazo, onde e como aplicar os recursos. Todos têm consciência da importância da educação para a formação das pessoas e de uma Nação. Investir em seus filhos, nesse ambiente onde moram transitoriamente, precisa ser encarado com determinação, pois o comando dos pais deve ser exercido. Caso contrário, no futuro corre-se o risco desses filhos se voltarem contra seus pais: seria na velhice destes uma grande tragédia. É melhor chorar agora e não ter que carregar o ônus da omissão. 
Afinal, a educação dos filhos é obrigação dos pais, e o direito de tê-la só poderá ser cobrado por eles, no futuro. 

texto original de

 

Copyright © 2000 - www.DaimoN.com.br - 

| Imigração | BrasilJapão | Dekassegui | Projetos | Música | Nandayo!? | Colirio |