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OS JAPONESES É QUE SÃO DIFERENTES
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- O Professor Leon Hollerman, de uma Universidade
da Califórnia, que escreveu um livro sobre a estratégia
japonesa em relação ao Brasil, me contou uma história muito
ilustrativa: "um certo professor americano convidou três
alunos de seu curso de pós-graduação - um alemão, um francês
e um japonês - e, colocando um elefante na frente deles,
pediu-lhes que fizessem uma análise do animal:
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- O alemão fez uma tese sobre os aspectos econômicos do
animal, determinando o valor que representaria a carne,
a pele, as presas de marfim, etc;
- O francês fez uma descrição detalhada sob o ponto de vista
cultural, de como poderia ser o animal utilizado como arte,
seu desenho, etc;
- O japonês, depois de matutar por horas, simplesmente questionou
- o que o elefante estaria pensando dele?
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| Em minhas andanças pelo Japão,
convidado pelos pais de brasileiros residentes nesse país para
esclarecer sobre a instalação do Colégio Pitágoras(1),
tenho conversado com muitos deles, não só sobre o assunto, mas
também tenho ouvido depoimentos que retratam os anseios dos
mesmos em relação ao futuro à luz dos graves problemas que enfrentam
no presente. |
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| Mas, antes de tudo isso, sinto
que muitos dos brasileiros que estão enfrentando a sua primeira
experiência de trabalho no Japão, têm em seus sentimentos conflitos
muito grandes em relação ao tratamento que têm recebido da sociedade
japonesa. O choque de serem considerados e tratados como cidadãos
de segunda categoria é uma agressão e marca as pessoas; pois,
apesar de serem filhos de japoneses, estão sendo tratados não
só como estrangeiros, mas simplesmente discriminados como "hen
jin" (pessoa diferente, excêntrica, no sentido negativo).
Muitos veteranos já ultrapassaram em parte o problema, mas em
seu íntimo ainda não conseguem engolir e aceitar os fatos. No
fundo, são os conflitos da identidade e nacionalidade. |
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| Tendo como "hobby"
frequentar livrarias e sebos, principalmente dos "books
shops" dos aeroportos, coletei mais de 150 publicações
sobre Japão e Japoneses, de autores de todas as nacionalidades,
inclusive de alguns japoneses, que não gostam de escrever sobre
os próprios defeitos. Aliás, um deles, Ichiro Kawasaki, diplomata
de carreira, escreveu um livro em 1955, The Japanese are like
that ("Os japoneses são assim"), de grande sucesso internacional,
e em 1969, quando escreveu Japan Unmasked ("Japão sem máscara"),
foi sumariamente demitido, no pleno exercício do cargo de Embaixador
do Japão na Argentina. |
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| A grande maioria dos livros
apresenta como título comum: |
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Como fazer negócios com os japoneses;
Como vivem os japoneses.
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- Existem inúmeros tratados e teses que
explicam o que significa:
wa - harmonia;
on - obrigações incorridas passivamente;
gimu - pagamento ilimitado de débitos;
giri - dever a ser pago equivalente em relação ao favor
recebido.
- Ainda, no campo dos negócios e costumes
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nemawashi - preparação para obtenção do consenso
ringi-sei - sistema de decisão de baixo para cima
honne - intenção real
tatemae - verdade formal
- e muitos outros; um deles, espantoso:
16 MANEIRAS DE EVITAR DIZER NÃO!
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| Fica a indagação: porque tem
tantos livros falando dos japoneses e não existem outros de
mesma natureza sobre os ingleses, franceses, turcos e demais?.
É que os japoneses são mesmo diferentes. Analisar o porquê disto
não cabe neste artigo. Tentarei não "pôr panos quentes", mas
relacionar e descrever fatos que ocorrem na sociedade brasileira
e japonesa e de outros países, e algumas vezes tecer alguns
comentários que os leitores poderão interpretar cada um a sua
maneira; e que talvez possam servir para minorar o "stress"
do dia-a-dia, vislumbrar o que poderá ser um nosso futuro melhor,
e despertar um pouco do que podemo-nos orgulhar de ser brasileiros
e agradecer pela decisão que os nossos avós e pais tomaram de
emigrar para o Brasil. |
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| A vinda dos brasileiros filhos
de japoneses para o Japão como trabalhadores tem sido objeto
de estudos de muitos pesquisadores internacionais, à semelhança
do que ocorreu no passado sobre a emigração de japoneses para
o exterior, particularmente para os Estados Unidos (Hawai) ,
Peru e Brasil. |
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| Alguns números são ilustrativos
para se ter conhecimento da importância do processo migratório
para o Japão e para o Brasil ao longo da história das relações
bilaterais. De 1868 a 1941, um total de 776.304 emigrantes japoneses
foi para o exterior, dos quais 244.946 para a América do Sul,
basicamente para o Brasil, que deu origem, segundo dados de
1988 ( J.Suzuki, 1992) a 1.230.000 nikkeijins: 110.000 de primeira
geração (8,9%); 450.000 de segunda geração (36,6%); 500.000
de terceira geração (40,7%); 80.000 de quarta geração (6,5%)
e 20.000 de quinta geração (1,6%). Este contingente de emigrantes
foi motivado do lado japonês para aliviar sua economia em crise
e do lado brasileiro pela necessidade de atendimento de suas
necessidades de mão-de-obra de sua lavoura de café. |
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| A vinda de brasileiros para
trabalhar no Japão se deveu a considerável disparidade na renda
e nas oportunidades de trabalho entre os dois países, a partir
de meados da década de 80, depois da valorização da moeda japonesa
imposta pelo G-7 no Acordo de Plaza e da crise da economia brasileira
após a moratória do México, tendo crescimento vertiginoso deste
a época do Plano Collor em 1990, de 14.528 pessoas para 56.429,
e 119.333 em 1991, chegando ao seu ápice em 1997 com 233.254
e diminuindo para 222.217 em 1998. Uma outra razão, que permitiu
o crescimento da presença dos brasileiros no Japão, foi a que
é citada por Michael Weiner em Japan's Minorities - the illusion
of homogeneity (1977): "o mito de um povo homogêneo é mais claramente
ilustrado nas atuais leis de imigração que, com exceção dos
nikkeijins, proibem a entrada do trabalhador migrante estrangeiro"
(o grifo é meu); legislação esta editada em maio de 1990. |
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| Ainda na mencionada obra editada
por Weiner, a pesquisadora Yoko Sellek caracteriza a chegada
dos brasileiros ao Japão como "migração de retorno", e relaciona
os nikkeijins como o mais recente grupo minoritário dentro da
sociedade japonesa, somando-se aos Ainus, Burakumins, Chineses,
Coreanos e Okinawanos. |
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| Das menções acima muita coisa
pode ser deduzida, mas aos problemas que os brasileiros estão
enfrentando no dia-a-dia, além do tipo de trabalho 3K (Kiken,
Kitsui e Kitanai (2)), ao qual a filipina Carmelita Kubota em
seu livro "An Asian View" acrescentou mais 1 K (Kussai
(3)), se somam o stress psicológico, cultural e de valores,
como a sua identidade e nacionalidade. Vale a pena lembrar Hideko
Oshiro (1986) mencionada por Adriana Capuano de Oliveira em
Repensando a Identidade dentro da Emigração Dekassegui (1999):
"Os problemas que impedem uma boa adaptação ao meio têm a ver
com a dificuldade de se assumir a própria identidade. Na identidade,
uma pessoa se reconhece a si mesma como diferente das outras,
mas ao mesmo tempo igual a todas as demais. Pode ser que uma
das razões pelas quais custa tanto à mulher e ao homem nisseis
a conquista de sua identidade, é que não podem se considerar
iguais aos demais. Sabem que são diferentes dos outros mas não
podem se completar com a aceitação de que também são iguais
às demais pessoas". |
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| Esse fenômeno migratório certamente
continuará, pelo que está acontecendo nas economias de ambos
os países. A expectativa do período de permanência dos brasileiros
no Japão está aumentando e, assim sendo, nos resta prepararmo-nos
para aceitar o ditado: "quem vai a Roma comporte-se como romano",
pois pelo exposto, esperar que os japoneses se tornem internacionais
a curto prazo é pouco provável. Eles também estão fazendo esforços:
em todos os municípios e prefeituras criaram setores internacionais
e também dizem que estão abrindo suas portas ao capital estrangeiro.
Mas percebe-se nitidamente uma grande distância entre o discurso
e a realidade. Como nós, os brasileiros, somos mais cosmopolitas
que eles, podemos contribuir bastante para ajudar a abreviar
o caminho para eles se tornarem conscientes de que os brasileiros
são iguais às demais pessoas, mas os japoneses é que são diferentes. |
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texto original
de Isidoro Yamanaka
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