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AFINAL, SOMOS OU NÃO BRASILEIROS?
Recentemente esta pergunta tem sido feita por muitos aqui no Japão, entre a coletividade de brasileiros. E gente de projeção tem mencionado o fato. A professora Lili Kawamura, da Universidade de São Paulo, autora da tese que deu origem ao seu livro Para onde Vão os Brasileiros, diz: "no Brasil, o descendente é chamado de japonês. No Japão apesar da semelhança física, ele é visto como um brasileiro". A professora Elisa Massae Sasaki relata em Movimento Dekassegui: "é comum ouvirmos relatos de brasileiros descendentes de japoneses de que - no Brasil se sentiam japoneses e no Japão, brasileiros". Sedi Hirano, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, em seu prefácio em Bastos, uma Comunidade Étnica Japonesa no Brasil, tese da professora Chiyoko Mita, da Universidade de Sophia, do Japão, destaca: "os japoneses que permaneceram no Brasil transformaram-se em nipo-brasileiros, adquirindo uma nova identidade, substituindo o culto ao Imperador pelo culto ao ancestral, integrando-se à sociedade brasileira".
Isto me faz lembrar, como nissei, o meu passado de experiências relacionadas ao tema e nunca esquecidas: logo no primeiro ano do grupo escolar, no interior de São Paulo, a direção da escola municipal levou os alunos para serem batizados na igreja local, e o padre, ao chegar a minha vez de receber a bênção, comentou mau humorado - "até 'quinta coluna' preciso batizar!"… Isto foi em 1944, em plena II Guerra Mundial. Talvez o ambiente de guerra tivesse exacerbado o espírito do padre, mas diante do fato deduzi que não tinha nenhum sentido freqüentar a igreja, o que me fez totalmente agnóstico. 
Ainda durante o período de guerra e mesmo depois, até o início da década de 60, os filhos de japoneses eram chamados de japoneses no Brasil, embora de fato e de direito fossem brasileiros, como todos que nascem no país e adquirem em sua plenitude os direitos inalienáveis de todos os cidadãos brasileiros. Esse tratamento dispensado - de japoneses - na época, tinha um caráter e um tom pejorativos, depreciativos e até maldosos. E a grande maioria dos descendentes ou ignoravam estas manifestações ou as utilizavam como desafios para se destacarem nos estudos, nos esportes, enfim, em todas as suas atividades.
Depois que o Japão mandou para o Brasil a equipe de natação que se destacou nas Olimpíadas de Melbourne, os conhecidos "peixes voadores", a imagem dos japoneses no Brasil começou a mudar. Contribuiu igualmente o fato de um nadador brasileiro de origem japonesa, Tetsuo Okamoto, ter obtido a primeira medalha para o Brasil nesta mesma Olimpíada; e a projeção que o Japão começou a ter no cenário internacional, não só nos esportes, mas também no seu processo de desenvolvimento econômico, este em parte graças a sua indireta participação na guerra da Coréia dos americanos (1950-53). 
Essa chegada dos "peixes voadores" ao Brasil e posteriormente a visita oficial do Principe Mikasa por ocasião do IV Centenário de São Paulo serviram inclusive, como uma demonstração através delas, para solução de um grave problema no meio da coletividade nipo-brasileira: a de sepultar definitivamente as divergências que ainda perduravam sobre as idéias de "katta - maketa" da II Guerra Mundial ( derrotistas e vitoristas do Japão) e, mais do que isso, conscientizar todos os japoneses de que o Japão, ao perder a guerra, não tinha a mínima condição de acolhê-los de volta. 
Atualmente, o tratamento dispensado por todos os brasileiros aos descendentes de japoneses, chamando-os de japoneses, tem caráter mais afetivo e de respeito do que antes. E isto foi graças, em parte, aos fatos acima mencionados, mas sobretudo aos espaços que os mesmos conquistaram dentro da sociedade brasileira e, pode se afirmar, em todos os setores da atividade humana no país e no exterior. Inclusive no Japão. Agora, ser chamado de estrangeiros no Japão, apesar de sua semelhança física, em nada pode depreciá-los. Até poderá ser objeto de orgulho. Pois, o que mais os japoneses querem ser hoje em dia é tornar-se internacionais. E os brasileiros, certamente, os são mais do que os japoneses. 
Vale a pena aqui mencionar a brilhante colocação que o professor Kootaro Horisaka fez há alguns dias no Seminário Brasil-Japão em Hamamatsu. Certamente o Brasil pratica em seu país a internacionalização que todos os povos almejam, pois convive em seu meio com todas as etnias que compõem a sua população, bem como com todas as seitas e religiões que as mesmas professam, sem guerra, em paz, trabalhando para o bem estar de suas famílias, em pleno processo democrático. Diz ele - que este exemplo talvez sirva como modelo que a humanidade deseja e persegue. 
Muitos brasileiros certamente perceberam seu despertar de patriotismo ou brasilianismo quando, pela primeira vez, vieram para o Japão. Valores como sentir uma grande emoção ao ouvir o hino nacional, ao ver a bandeira verde-amarela tremular, ao assistir jogos da seleção brasileira de futebol, voleibol e basquete em seus jogos no Japão; alguns hábitos - como ouvir pagode e samba, participar dos desfiles carnavalescos - que no Brasil não faziam parte de suas atividades culturais: mas, uma vez no Japão, tudo isso sendo reconhecido internacionalmente e pela sociedade japonesa como símbolos da identidade com o Brasil, sentem que são portadores desses valores culturais eminentemente brasileiros e passam a reavaliá-los e valorizá-los, com mais emoção, reforçados pela saudades que sentem. 
Vale a pena transcrever o que Adriana Capuano de Oliveira diz em Repensando a Identidade dentro da Emigração Dekassegui : "ter cara de japonês e não ser japonês representa uma situação complicada no Japão, pois os japoneses, sabendo que a pessoa é um descendente e tem o sangue japonês nas veias, cobra dessas pessoas atitudes comportamentais das quais elas não partilham. Já as atitudes desfavoráveis aos seus padrões vindas de estrangeiros comuns, dentre os quais mestiços (desde que não pareçam japoneses, é claro), são incômodas mas aceitáveis, visto que este estrangeiro supostamente é desinformado dos padrões sociais e modos de vida existentes no Japão. Sendo assim, esse estrangeiro é tolerável dentro da sociedade japonesa, pois ele seria inocente de seus erros e de suas contravenções". 
O tema tornou-se importante nestes últimos dias pela veiculação através da imprensa e TV japonesas de notícia que nos afeta diretamente - da necessidade potencial da economia japonesa, diante do seu crescimento previsto pela Secretaria de Planejamento, de ter de incorporar anualmente, em todos os seus setores, inclusive na agricultura, mais de 600 mil trabalhadores não qualificados, que necessariamente seriam de estrangeiros. Diante deste contexto, certamente os brasileiros serão acenados para o atendimento dessa necessidade japonesa, e aqui cabe um alerta que precisa ser considerado com bastante seriedade: repetir o que aconteceu com os nossos ancestrais que emigraram para o Brasil com o objetivo de ganhar dinheiro e voltar, mas que tiveram de ficar definitivamente. Isto foi possível e suportável porque foram acolhidos e aceitos pela sociedade brasileira. Não é o que se pode esperar da sociedade japonesa. 
A vontade da grande maioria dos brasileiros aqui residentes é de voltar para o Brasil porque chegou à conclusão de que ama o seu país. Mas a situação econômica e social brasileira tem alongado sucessivamente a sua permanência e, com o passar do tempo, tudo aquilo que imaginava ser temporário, de curto prazo, poderá ser mesmo até definitivo. Nestas circunstâncias, certas opções precisam ser definidas e planejadas para se ter uma orientação de como atingir os grandes ideais de nossas vidas, da família e particularmente de nossos filhos - estes não podem depender da transitoriedade, com risco de sua formação intelectual e emocional ser distorcida irreversivelmente, até de não reconhecer a sua identidade nem como brasileiros, nem como japoneses. Os nossos ancestrais nos incutiram valores e nos proporcionaram educação que nos habilitaram a ser o que somos, o que precisamos delegar aos nossos descendentes, esses fundamentos, para se tornarem os global players deste mundo globalizado que será este milênio, como brasileiros e com muito orgulho. 

texto original de

 

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